segunda-feira, 15 de abril de 2013

Recorte

Não existo.
Começo a conhecer-me.

Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.





Álvaro de Campos

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Conto

Quando acordou o dia estava nublado, mas a chuva aparentava não chegar tão cedo. Gostava de tempos assim, eram raros na era da instabilidade climática. Sobretudo pela nostalgia que a abatia. Lembrava-se da infância. Nos seus primeiros anos, chuva e o frio era tão comum que admirá-los era o mesmo que encantar-se com algo banal. Sempre que pensava nisso, Eva lamentava sua ignorância.
Decidiram dar uma volta, ela e sua irmã Susi. Vestir para esses dias era um dos divertimentos delas. Colocaram sapatos fechados, calça e suéter; e caminharam para a saída mais próxima da cidade. Estavam sem guarda chuva e o céu ali parecia ameaçador, não poderiam ir longe sem correr o risco de se molharem. Abandonar a caminhada era algo impensável, e, além disso, a poucos metros dali encontrava-se um cemitério que há muito tempo não iam.Parecia atrativo trilharem para lá, mesmo se tratando de um cemitério. No momento que a possibilidade apareceu, elas a acolheram. Eva,como uma amante de filmes de terror, pensou que seria excitante constatar o que sentiria ao olhar com seus próprios olhos um cenário que tanto encontrava em filmes que via. Fazia tanto tempo que não ia ali... Não conseguia recordava como era. Susi também era movida pela curiosidade, mas não pela literária. Ela apenas queria saber se nas proximidades já havia abacate maduro. Sua vontade de tomar uma batida era tamanha que esqueceu temporariamente do medo que tinha por qualquer ligação ao sobrenatural.
A entrada do cemitério não era diferente de qualquer outra cidade pequena. Sua estética era arcaica e o caminho que levava ao cemitério era isolado e rodeado de árvores, fazendo com que o sol não resplandecesse em sua magnitude. 
Deixando os pormenores subentendido, Eva cruzou o portão logo atrás de sua irmã. Estavam tão absorvidas em olhar cada lápide que mal notaram que estavam se distanciando uma da outra.
Eva voltou sua atenção à data de nascimento de cada "habitante". Queria encontrar o mais velho. Deveria ter alguém que tivesse nascido no século XIX e não apenas no  XX, como via até então.E em uma das ruas do centro do cemitério, encontro. O nome na lápide era de um homem que havia nascido em 1872. Na mesma lápide havia a segunda habitante mais velha dali, com um ano apenas de diferença. Ela devia ser a esposa dele. 
Não passou despercebido para Eva e Susi como aquele lugar era abandonado em um outro sentido. Se havia alguém responsável pela limpeza, não estava cumprindo seu dever. No fim do cemitério é onde se notava abertamente o descaso. Fixava-se uma espécie de procissão em meio a uma cruz. Restos de velas em junção com resíduos de água das chuvas, provavelmente, produzia um cenário repugnante.O cheiro estava medonho.
No fim da última rua, Eva encontrou uma sepultura familiar. Quando criança sempre que ia ao cemitério nos dias dos mortos, sentia fascínio por aquela lápide. Era formada por uma casa em miniatura com área frontal toda roxa, com janelas brancas. Ao chegar mais perto era possível ver um porta-retratos com a foto de um bebê e uma linda boneca de porcelana trajando um vestido branco bordado. Imaginava quando criança que o bebezinho era a pessoa mais sortuda do mundo por morar em uma casa tão linda e por ter uma boneca daquelas. Ao relembrar disso Eva pensou com carinho em como era inocente.
As irmãs saíram do cemitério caladas; O silêncio lá fora não era o mesmo gritante sentido lá dentro. Estar no cemitério era respirar o fim, concluiu Eva. A cada lápide ela se imaginou no lugar da pessoas e pensava o quão ruim era viver tão pouco, porque mesmo se vivesse até os noventa anos, não parecia o suficiente para ela. "É injusto nascer para morrer", dizia.
A chuva chegou a um quarteirão de suas casas. Susi passou pelo portão sem nenhum abacate e Eva com os temores em sua cabeça.